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Hideo Kojima faz 63 anos: o homem que recusou fazer jogos normais e mudou a indústria três vezes

De Metal Gear a Death Stranding, de Konami à própria empresa, de demitido ao Hall da Fama. Kojima é o único designer de games que virou personagem maior que os próprios jogos. Hoje ele completa 63 anos e ainda está acelerando.

Por · 24 ago 2026 · 12:00 · 18 min de leitura

📷 Hideo Kojima entre Death Stranding e Metal Gear Solid. Reprodução

Hideo Kojima completa 63 anos hoje, 24 de agosto de 2026. E a melhor forma de entender quem ele é provavelmente não começa nos jogos. Começa num apartamento de Setagaya, em Tóquio, onde um adolescente assistia cinema o dia inteiro e sonhava em fazer filmes. Não conseguiu. E a indústria dos videogames agradece por isso.

📷 Hideo Kojima em 2026. Reprodução

A infância que formou tudo

Nascido em 24 de agosto de 1963 em Setagaya, Kojima cresceu com o pai ausente desde os 13 anos. Cresceu com a mãe e os filmes. Muitos filmes. Ridley Scott, John Carpenter, Kubrick: diretores obcecados com atmosfera, com o que fica fora do quadro, com o que o espectador sente antes de entender o que está vendo. Essa obsessão atravessa cada jogo que ele fez.

Estudou economia na Universidade Tokai, passou a faculdade tentando aprender cinema por conta própria, formou sem entrar para o mercado financeiro e ficou meses desempregado até conseguir uma vaga na Konami em 1986.

Antes do Metal Gear: os primeiros trabalhos

Na Konami, Kojima começou no departamento de jogos para MSX2 numa posição junior. O primeiro título que ele concebeu foi Lost World, mas o projeto foi cancelado internamente antes de sair.

Em 1987 veio Penguin Adventure, um jogo de ação e aventura no qual ele trabalhou como assistente, aprendendo o funcionamento interno de uma produção. Mas foi no mesmo ano que saiu Metal Gear, o jogo que mudou tudo. Ele tinha 24 anos.

Metal Gear: quando um jogo de ação virou outra coisa

A premissa parecia genérica: soldado infiltrado numa base inimiga. O que Kojima fez com ela foi o que ninguém fazia: transformou o objetivo central para não matar, mas não ser visto. O sigilo nasceu de uma limitação técnica real. O hardware do MSX2 não aguentava muitos inimigos em tela sem travar. Kojima abraçou a limitação e ela virou o design.

Esse padrão, transformar o obstáculo na solução, é uma das marcas de toda a sua carreira.

Metal Gear Solid, em 1998 para PlayStation, foi o ponto de virada global. Cutscenes cinematográficas de um nível que o videogame nunca tinha visto, personagens com profundidade psicológica e uma narrativa sobre clonagem e identidade que o meio ainda não tinha ousado explorar. E o jogo sabia que era um jogo: o Psycho Mantis lia o cartão de memória, o Coronel Campbell rompia a quarta parede, lutas inteiras foram construídas para confundir a percepção do jogador.

Vieram MGS2 (que descartou o protagonista no meio do jogo como experimento sobre identidade), MGS3 (uma tragédia de amor na selva da Guerra Fria), MGS4 (o encerramento exaustivo do arco do Solid Snake) e Peace Walker. No meio, Zone of the Enders e a série Boktai. Em 2013 saiu Metal Gear Solid V: Ground Zeroes, o prólogo, e em setembro de 2015 chegou The Phantom Pain, o jogo completo e o último da série.

📷 Da era MSX a Death Stranding: quatro décadas de escolhas que ninguém mais fazia. Reprodução

A saída da Konami

A relação com a Konami deteriorou ao longo de anos, com questões de orçamento, autonomia criativa e direção corporativa. Em 2015, depois de terminado Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, Kojima foi efetivamente demitido numa das saídas mais públicas e mal gerenciadas da indústria. A Konami apagou o nome dele dos créditos promocionais do jogo antes do lançamento.

Kojima Productions: um recomeço aos 52 anos

Em dezembro de 2015, com 52 anos, Kojima fundou a própria empresa. A parceria com a Sony foi anunciada logo em seguida. A sede da Kojima Productions foi estabelecida em Shinagawa, Tóquio, e o estúdio reuniu veteranos de vários lugares da indústria.

Death Stranding e a aposta que ninguém pedia

Death Stranding chegou em novembro de 2019 para PlayStation 4. Era um jogo sobre conectar pessoas num mundo partido, mecanicamente construído em torno de carregar peso por longas distâncias. Lento, contemplativo, quase oposto ao que a indústria premiava. Metade da crítica chamou de obra-prima, metade chamou de tédio embalado em visuais bonitos.

O jogo envolvia Norman Reedus, Mads Mikkelsen, Léa Seydoux e Guillermo del Toro como personagem. Mais de 20 milhões de cópias foram vendidas combinando todas as plataformas. Hoje, relido depois de uma pandemia que isolou o mundo inteiro, ele parece ter sido feito para ser visto em retrospecto.

Death Stranding 2: On the Beach chegou em junho de 2025, exclusivo de PlayStation 5, com lançamento no PC em março de 2026. Foi o maior lançamento da Kojima Productions até agora.

Death Stranding fora dos jogos: três projetos em paralelo

O universo de Death Stranding está sendo expandido em três frentes simultâneas, todas confirmadas.

O primeiro é um filme live-action produzido pela A24, com direção de Michael Sarnoski (A Quiet Place: Day One). Kojima escolheu a A24 justamente porque não queria um blockbuster de ação caro.

O segundo é Death Stranding: Mosquito, um filme de animação dirigido por Hiroshi Miyamoto e produzido pela ABC Animation Studio, com roteiro de Aaron Guzikowski, roteirista de Prisoners e da série Raised by Wolves.

O terceiro e mais recente é Death Stranding Isolations, uma série animada em 2D anunciada no Disney+ Originals Preview em Hong Kong, em novembro de 2025. A série estreia no Disney+ em 2027, com produção da E&H Production, o estúdio criado pelo ex-diretor da MAPPA Sunghoo Park, responsável por Ninja Kamui. Hideo Kojima é produtor executivo. A história é nova, separada dos jogos, e acompanha um jovem homem e uma jovem mulher enquanto navegam o mundo do Death Stranding. O design de personagens é de Ilya Kuvshinov, que assinou Ghost in the Shell: SAC_2045. A direção é de Takayuki Sano, que trabalhou em Dragon Ball Z: Battle of Gods.

OD: terror com Jordan Peele

OD é uma colaboração com Jordan Peele, diretor de Get Out e Us, sendo desenvolvido para Xbox e PC. Poucos detalhes técnicos foram revelados, mas Kojima descreveu como um projeto que quer explorar o medo de formas que os jogos ainda não tentaram. É território novo para ele como projeto principal.

Physint: a obra que ele quer que defina a carreira

Physint é o projeto mais ambicioso em andamento. Confirmado em parceria com a Sony Interactive Entertainment e publicado pela SIE, é um jogo de espionagem e ação que Kojima descreveu como a culminação de toda a sua carreira. O título é um portmanteau de physical intelligence.

O elenco confirmado até agora inclui Charlee Fraser, Don Lee e Minami Hamabe. Um vilão com sotaque alemão está sendo buscado no casting, descrito internamente como 'Mads Mikkelsen em Hannibal, mas com mais flair'. O nome de trabalho interno é Shimmer.

A produção entrou em fase ativa em 2026, com captura de movimento prevista para começar nos próximos meses. Hideo Kojima estimou que o projeto levará de cinco a seis anos para ficar pronto, sugerindo um lançamento por volta de 2030, posicionando o jogo como título de PS6.

Kojima em 2026: onde gostaria de estar quando partir

📷 Entre Death Stranding e Metal Gear Solid: o homem que fez os dois. Reprodução

O que define Kojima

Existe um paradoxo no centro da carreira dele. Kojima é o criador de games mais famoso do mundo, e boa parte dessa fama vem de uma persona cuidadosamente cultivada: redes sociais, fotos com diretores de Hollywood, presença em festivais e premiações. Tem gente que acha isso artificial.

Mas o mesmo exibicionismo que irrita parte da comunidade é o que manteve a conversa sobre seus jogos viva durante décadas. E existe algo mais raro ainda: em quarenta anos de carreira, ele nunca produziu uma sequência segura só para pagar as contas. Cada título é uma aposta no que ele considera o próximo passo possível, mesmo quando o mercado não pede.

Em 2020, foi incluído no AIAS Hall of Fame. Em 2023, recebeu o BAFTA vitalício. São prêmios para quem mudou o que o medium é capaz de fazer.

Com 63 anos, dois jogos em desenvolvimento, três adaptações de Death Stranding em andamento, ele está claramente acelerando. A urgência que aparece nas entrevistas recentes não estava presente há dez anos. É a de alguém que sabe que o tempo é finito e quer usar cada parte dele.

Feliz aniversário.

Sobre o autor

Bruno Vazquez

Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.

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Com informações de: Apuração Acerto Games

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