"A moral está péssima": funcionários da EA relatam pressão por IA e demissões em segredo
Atuais e ex-funcionários dizem que a moral despencou após o fechamento da BioWare. Segundo eles, a IA é empurrada sem ser obrigatória, e o FC banca as apostas ruins.
Por Bruno Vazquez · 28 out 2026 · 10:36 · 4 min de leitura

📷 Skate. Divulgação/EA
Uma semana depois de fechar a BioWare e cortar cerca de 400 vagas, a EA enfrenta críticas de dentro de casa. Funcionários atuais e ex-funcionários da empresa descreveram, sob anonimato, um ambiente de moral em queda, pressão por inteligência artificial e demissões feitas no escuro.
Os relatos foram reunidos pelo jornalista Chris Kerr e publicados nesta terça-feira (27). Segundo ele, todas as fontes ouvidas disseram que a moral na EA despencou. "A moral está péssima", resumiu uma delas.
Pressão por IA
Parte da insatisfação vem do avanço da inteligência artificial generativa. "A frase que a gente ouvia era 'fazer menos, e melhor', mas parecia que fazíamos a mesma quantidade com menos gente", contou um funcionário. Segundo ele, a alta gestão estava empolgada com o Claude e com as possibilidades da IA, para desgosto da equipe.
Outras fontes confirmaram que a tecnologia é empurrada com força, mas ainda não é obrigatória. "Eles não vão dizer que essas ferramentas são obrigatórias, mas vão tornar impossível ou muito difícil fazer o trabalho sem elas", disse um funcionário. Outro resumiu a mensagem dos gestores: "isso é o futuro, você precisa embarcar".
Demissões em segredo
O processo de cortes também virou alvo. Segundo as fontes, a EA não informa às equipes, e às vezes nem aos gerentes, quem exatamente foi demitido. Uma funcionária cortada contou que colegas só se despediram dela depois de ver o aviso no LinkedIn.
"Parte do impacto emocional devastador é descobrir que um amigo e colega foi dispensado, de novo e de novo, ao longo de semanas", relatou outra fonte. Quem foi cortado diz ter sido chamado para uma reunião no Zoom com o chat desligado e os outros participantes ocultos.
A EA ofereceu a parte dos demitidos um prazo para buscar outras vagas na empresa. Muitas dessas vagas, porém, exigem trabalho presencial três dias por semana. "É uma piada. Nem procurei, porque não quero mais trabalhar neste lugar", disse uma das fontes.

FC paga as apostas erradas
A crítica à diretoria é direta. "Os executivos da EA não podem falhar, só ser falhados", disse uma fonte. "Eles têm sorte de o EA Sports FC vender e render tanto dinheiro que consegue financiar as apostas ruins", completou.
As fontes também acusam a empresa de dizer uma coisa e fazer outra. No e-mail dos cortes, a gestão afirmou que Skate tem potencial de longo prazo. Segundo os relatos, a Full Circle, estúdio do jogo, perdeu entre 30% e 40% da equipe.
Sobre a BioWare, quem falou com o jornalista disse que o estúdio foi sufocado aos poucos. A equipe teria sido orientada várias vezes a trocar escolhas, consequências e companheiros por elementos de serviço contínuo e multiplayer. "Muito dinheiro foi desperdiçado em caminhos que não levaram a lugar nenhum", afirmou uma fonte.
BioWare vai fechar, e o próximo Mass Effect foi cancelado
O pano de fundo é a venda da EA. A empresa foi comprada por um consórcio de investidores liderado pela Arábia Saudita, num negócio de US$ 55 bilhões. A operação deixou a companhia com cerca de US$ 20 bilhões em dívidas, e os cortes vieram menos de três meses depois.
Venda da EA por US$ 55 bilhões, a maior da história dos games
Além da BioWare, os cortes atingiram estúdios como Maxis, Full Circle, Motive, Respawn e Ripple Effect. Várias fontes acreditam que novas demissões ainda podem vir.
O peso do EA Sports FC
O retrato tem um detalhe que chama atenção. O EA Sports FC, que segundo as fontes banca as apostas ruins da empresa, é uma das séries mais fortes por aqui. A própria Nintendo escolheu FC 27 para o pacote do Switch 2 lançado no Brasil em 15 de outubro.
Para quem é fã de Mass Effect por aqui, o cenário segue nebuloso. A petição "Save Mass Effect" passou de 200 mil assinaturas depois do fechamento da BioWare, mas a EA não deu sinal de que vai mudar de ideia.
EA tira Mass Effect de Battlefield 6, e petição para salvar a série passa de 200 mil
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
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