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Análise: Death Stranding 2 é uma obra-prima exuberante — Kojima entrega um dos grandes jogos da geração

Fenomenal, visualmente assombroso e emocionalmente poderoso, Death Stranding 2: On the Beach transforma a estranheza do original em uma sequência mais madura, variada e confiante. Kojima está em estado de graça.

Por · 10 set 2026 · 18:51 · 16 min de leitura

📷 Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

10.0

Nota final do Acerto Games

Há jogos excelentes, há jogos tecnicamente impressionantes e há aqueles raros trabalhos em que direção, tecnologia, interpretação, música, design e ambição parecem avançar na mesma direção. Death Stranding 2: On the Beach pertence a essa última categoria. A sequência de Hideo Kojima é exuberante, gigantesca, estranha, emocional e absolutamente consciente do que quer ser. Depois de terminar a jornada, minha sensação não foi apenas a de ter jogado um grande videogame. Foi a de ter atravessado uma obra que entende a força particular desta mídia e usa praticamente tudo o que ela tem à disposição.

Dar nota 10 a Death Stranding 2 não significa afirmar que cada segundo é perfeito ou que nenhuma decisão pode ser discutida. Significa reconhecer o tamanho do conjunto. Poucos jogos desta geração conseguem combinar tamanha excelência visual com sistemas tão ricos, uma direção tão autoral e uma capacidade tão rara de transformar deslocamento, silêncio, paisagem e presença humana em partes fundamentais da experiência. Kojima não fez simplesmente uma continuação maior. Ele pegou uma ideia que já parecia impossível de imitar e encontrou maneiras de torná-la mais fluida, mais variada, mais cinematográfica e, curiosamente, ainda mais pessoal.

📷 A escala das paisagens transforma cada travessia em parte do espetáculo. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Uma sequência que entendeu exatamente o que precisava mudar

O primeiro Death Stranding tinha coragem de sobra, mas também exigia que o jogador aceitasse uma quantidade considerável de atrito. Havia algo proposital naquele desconforto: andar era um sistema, carregar peso era um sistema, cair era um risco real, atravessar um rio podia virar um problema. Death Stranding 2 preserva essa identidade, porém reorganiza suas engrenagens com uma precisão fenomenal.

A progressão é mais generosa, as ferramentas aparecem em um ritmo mais inteligente e o jogo oferece alternativas sem transformar a experiência em um corredor de facilidades. Rodovias continuam importantes, mas agora convivem com monorres, veículos, novas estruturas e uma quantidade enorme de equipamentos. A preparação ainda importa. A diferença é que você sente que está montando uma estratégia, não preenchendo uma obrigação burocrática.

Isso muda tudo. A jornada deixa de ser apenas a pergunta 'como chego até lá?' e passa a incluir 'como eu quero chegar até lá?'. Posso construir infraestrutura, contornar uma área hostil, apostar em velocidade, seguir a pé, explorar uma rota mais segura, aceitar riscos para encurtar caminho ou simplesmente parar por alguns segundos e contemplar o mundo. Essa liberdade é um dos motivos pelos quais o jogo consegue sustentar dezenas de horas sem perder o fascínio.

📷 O jogo usa memórias, relações e pequenos objetos para humanizar um universo de escala colossal. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

A travessia voltou a ser a mecânica principal — e nunca foi tão boa

Death Stranding sempre teve uma ideia brilhante: transformar o espaço entre dois pontos no verdadeiro conteúdo. Em muitos jogos de mundo aberto, o mapa é aquilo que se atravessa para chegar ao que interessa. Aqui, o mapa é o que interessa. A montanha, a encosta, o terreno instável, a chuva temporal, o peso nas costas e a escolha de rota são o próprio jogo.

Na sequência, essa filosofia chega a um nível impressionante. A Austrália oferece diversidade visual e topográfica suficiente para que a geografia pareça estar em constante transformação. O ciclo de dia e noite muda leitura e comportamento. Terremotos, tempestades de areia, incêndios e outras ameaças ambientais não são apenas efeitos bonitos; interferem na tomada de decisão. O mundo não funciona como um pano de fundo. Ele reage, resiste e, em certos momentos, parece desafiar o jogador diretamente.

É aí que Death Stranding 2 se torna especial. Chegar ao destino não é apenas riscar uma missão da lista. É lembrar de uma subida que parecia impossível, de uma estrutura construída por outro jogador no lugar exato, de uma carga salva no último instante ou daquele momento em que a trilha sonora começa a tocar depois de um longo trecho de absoluto silêncio. Poucos jogos compreendem tão bem o valor do tempo entre os acontecimentos.

📷 A sequência equilibra a escala do mundo com personagens que tornam cada nova conexão mais humana. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Mais Metal Gear, sem deixar de ser Death Stranding

Há também uma mudança impossível de ignorar: Death Stranding 2 abraça ação e infiltração com uma confiança muito maior. Kojima passou décadas refinando a linguagem do stealth e seria estranho que esse conhecimento não reaparecesse com força em uma sequência mais ambiciosa. Ele reaparece.

O arsenal é amplo, os confrontos têm mais possibilidades e invadir uma instalação inimiga pode ser resolvido de maneiras muito diferentes. Ainda existe aquela sensação deliciosa de observar o ambiente, marcar ameaças, escolher uma entrada e improvisar quando o plano desmorona. Quem conhece Metal Gear encontrará ecos por toda parte, mas o resultado não parece uma tentativa desesperada de reproduzir o passado. É como se Kojima estivesse permitindo que antigas obsessões conversassem com as novas.

Essa combinação torna o ritmo muito mais variado. Um longo período de contemplação pode ser interrompido por uma sequência de infiltração, uma perseguição, um confronto gigantesco ou uma cena completamente absurda. E Death Stranding 2 é melhor justamente porque não tenta esconder seu excesso. Ele quer ser elegante e ridículo, melancólico e explosivo, intimista e operístico — às vezes na mesma hora.

📷 Fragile retorna em uma história muito mais interessada em vínculos, perdas e aquilo que permanece depois delas. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Visualmente, é uma demonstração de força

Existe um momento em que falar 'bonito' deixa de ser suficiente. Death Stranding 2 é um jogo visualmente assombroso. Não apenas porque possui alta resolução, personagens detalhados ou efeitos sofisticados. A diferença está na composição. A Kojima Productions sabe onde colocar a câmera, quando abrir o enquadramento, quando aproximar um rosto e quando deixar uma paisagem enorme falar sozinha.

A tecnologia serve à direção de arte. Poeira, lama, rocha, neve, água, pele, cabelo, tecidos e superfícies metálicas têm uma qualidade material impressionante. As transições entre gameplay e cenas cinematográficas são tão naturais que, em muitos momentos, é difícil perceber onde termina uma linguagem e começa a outra. O resultado é um daqueles raros títulos que fazem o hardware parecer mais poderoso do que imaginávamos.

📷 Quando decide abraçar o espetáculo, Death Stranding 2 não conhece a palavra moderação. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Kojima é um gênio quando entende que o absurdo também pode emocionar

Chamar Hideo Kojima de gênio pode soar como exagero até você perceber a quantidade de ideias potencialmente incompatíveis que Death Stranding 2 consegue manter dentro do mesmo universo. Há humor físico, melodrama, horror, ficção científica, crítica tecnológica, referências musicais, nomes impossíveis, personagens extravagantes e imagens que parecem ter escapado de sonhos particularmente caros.

Em mãos menos seguras, seria um desastre tonal. Aqui, quase sempre funciona porque existe uma sinceridade desconcertante por trás do espetáculo. Kojima não parece constrangido com as próprias obsessões. Ele vai até o fim. E quando um autor tem recursos, equipe e liberdade para perseguir uma visão tão particular, o resultado pode atingir lugares que obras mais calculadas simplesmente não alcançam.

O grande mérito não é ser estranho. Estranheza por si só é fácil. O mérito é fazer com que algo tão excêntrico seja emocionalmente compreensível. Death Stranding 2 fala de luto, paternidade, isolamento, confiança e necessidade de conexão sem abandonar robôs colossais, entidades impossíveis e combates que beiram o delírio. É exatamente essa convivência de extremos que torna o jogo inesquecível.

📷 A ação ganhou corpo, escala e um evidente eco da longa experiência de Kojima com jogos de infiltração. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

O elenco é fenomenal

Norman Reedus entende Sam de uma maneira ainda mais profunda. O personagem continua econômico, fechado e marcado por tudo o que viveu, mas há pequenas mudanças de expressão e postura que dizem mais do que muitos monólogos. Léa Seydoux dá a Fragile uma presença impressionante, alternando vulnerabilidade e força sem transformar a personagem em uma simples extensão do protagonista.

Elle Fanning, Shioli Kutsuna, Luca Marinelli, George Miller, Troy Baker e o restante do elenco ajudam a criar uma galeria que só poderia existir em um jogo de Kojima. E isso não é apenas uma coleção de rostos famosos. Há direção. Há intenção. Mesmo personagens desenhados para parecerem maiores que a vida possuem momentos de intimidade capazes de reorganizar nossa percepção sobre eles.

Luca Marinelli, em particular, recebe material que permite a Kojima brincar abertamente com iconografia militar e memórias que os fãs de Metal Gear inevitavelmente reconhecerão. Troy Baker, por outro lado, abraça completamente o excesso. Higgs é teatral, ameaçador, engraçado, ridículo e fascinante. É uma atuação que entende a frequência exata desse universo.

📷 Nos melhores momentos, uma expressão ou um silêncio dizem mais do que qualquer exposição de roteiro. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

A música não acompanha a jornada. Ela a transforma

Existe uma inteligência extraordinária na forma como Death Stranding 2 usa música. O jogo resiste à tentação de preencher todos os espaços. Deixa o vento, os passos, o motor, a chuva e o ambiente construírem uma camada de silêncio. Então, quando uma canção finalmente entra, ela adquire um peso enorme.

Woodkid se encaixa com perfeição à sensibilidade do projeto. As faixas não aparecem como um videoclipe colocado sobre o gameplay; surgem como parte da memória daquele trajeto. É possível lembrar de determinados lugares pela música que tocou quando chegamos a eles. Essa relação entre espaço e som é uma das assinaturas mais belas da série.

O design sonoro também é extraordinário. O DualSense contribui para a sensação de peso, superfície e impacto, enquanto armas, equipamentos, veículos e fenômenos ambientais possuem identidade sonora própria. Em fones de ouvido ou em um bom sistema de som, há uma riqueza de camadas que transforma a experiência.

📷 A direção visual mistura horror, ficção científica e espetáculo sem perder a identidade. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Os chefes finalmente acompanham a ambição do mundo

Se a exploração é o coração de Death Stranding 2, seus grandes confrontos são o momento em que a Kojima Productions abre todas as comportas. Algumas batalhas são monumentais. Não se trata somente do tamanho das criaturas, mas de como cenário, câmera, efeitos, música e mecânicas se combinam para construir sequências que parecem impossíveis até começarem a acontecer.

Há um prazer quase infantil em perceber que o jogo ainda consegue aumentar a escala depois de dezenas de horas. É um tipo de espetáculo que poderia facilmente virar ruído, mas a boa direção mantém clareza suficiente para que o jogador continue tomando decisões. Mesmo quando tudo explode, ainda estamos jogando.

📷 As grandes batalhas dão ao jogo uma escala quase absurda, mas continuam apoiadas em sistemas claros de movimentação e combate. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Um mundo aberto que respeita a paisagem

Talvez o maior elogio que eu possa fazer ao mundo de Death Stranding 2 seja este: ele não parece um catálogo de atividades. Não há a sensação de estar limpando ícones de um mapa. Há caminhos, necessidades, pedidos, conexões e oportunidades, mas o espaço continua respirando.

A construção coletiva volta a ser uma ideia maravilhosa. Encontrar uma escada, uma ponte ou uma estrutura deixada por outra pessoa ainda produz uma sensação genuína de companhia, mesmo sem vermos aquela pessoa. O Social Strand System permanece uma das interpretações mais inteligentes de multiplayer assíncrono já feitas porque traduz cooperação em infraestrutura. Alguém esteve aqui antes de você. Alguém pensou em quem viria depois.

Com os monorres e outras possibilidades de desenvolvimento do território, essa fantasia de reconstrução se torna ainda mais satisfatória. Começamos vulneráveis diante do terreno e, aos poucos, mudamos nossa relação com ele. O mapa não é conquistado por bandeiras. É transformado por caminhos.

📷 O mundo alterna regiões áridas, áreas hostis e paisagens quase alienígenas com uma direção de arte exuberante. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

A pergunta é melhor do que a resposta: deveríamos ter nos conectado?

O primeiro jogo nasceu em torno da necessidade de conexão. A sequência chega depois de uma pandemia e de anos em que estar conectado passou a significar coisas muito mais ambíguas. Kojima reformula a tese. Conectar pessoas continua podendo salvar vidas, mas conexão também cria dependência, controle, exposição e consequências que nem sempre conseguimos prever.

Essa mudança é mais interessante do que repetir a mensagem anterior. O jogo não abandona a esperança. Ele a complica. E faz isso enquanto nos obriga mecanicamente a conectar lugares, construir redes e usufruir do trabalho coletivo. É uma contradição deliberada entre o prazer de conectar e o medo do que a conexão pode produzir.

Nem toda reflexão chega com a mesma sutileza. Kojima ainda gosta de explicar. Às vezes explica de novo. Em alguns momentos, eu preferiria que uma imagem permanecesse sem comentário ou que determinada metáfora não recebesse uma tradução tão literal. Essa é talvez a principal imperfeição do texto. Ainda assim, quando a história acerta, acerta com uma força brutal.

📷 Algumas das imagens mais poderosas do jogo parecem monumentos a uma civilização tentando compreender o impossível. Divulgação/Kojima Productions e Sony Interactive Entertainment

Onde Death Stranding 2 ainda tropeça

A nota 10 não me impede de reconhecer problemas. Algumas conversas reiteram informações que já compreendemos. Certas missões podem parecer longas demais se o jogador insistir em uma abordagem pouco eficiente. A maior acessibilidade da sequência também diminui um pouco daquela vulnerabilidade radical que tornava os primeiros quilômetros do jogo original tão memoráveis.

Death Stranding 2 é uma continuação mais confortável com a própria fórmula e, justamente por isso, não provoca o mesmo choque conceitual de 2019. O primeiro precisou inventar uma linguagem; o segundo pode refiná-la. Para alguns jogadores, isso poderá soar menos revolucionário. Para mim, é o momento em que essa linguagem finalmente alcança sua forma mais completa.

Existe uma diferença importante entre novidade e maturidade. Death Stranding 2 talvez não seja tão alienígena quanto o primeiro contato com aquele universo, mas é um videogame muito mais seguro de suas escolhas. Prefiro uma obra que transforma experiência em domínio a uma sequência que destrói sua identidade apenas para parecer diferente.

Nota 10 não é sinônimo de perfeição

Minha nota é 10 porque Death Stranding 2 atinge um patamar raro de realização. Ele me surpreendeu tecnicamente, me envolveu mecanicamente e, principalmente, me atingiu emocionalmente. É um jogo que eu continuava pensando quando não estava jogando. Eu queria voltar para construir uma rota melhor, completar uma entrega, ver a próxima paisagem, reencontrar um personagem ou simplesmente descobrir que loucura Kojima colocaria diante de mim depois.

Há jogos que recebem 10 porque parecem impecavelmente polidos. Death Stranding 2 recebe 10 porque é extraordinário. Porque arrisca. Porque tem personalidade. Porque olha para o primeiro jogo, entende suas virtudes e fragilidades e entrega uma sequência mais dinâmica sem amputar aquilo que tornava sua proposta especial.

E porque, no fim, ainda existe algo profundamente emocionante em colocar um pé diante do outro.

Veredito

Death Stranding 2: On the Beach é uma obra-prima exuberante. É mais acessível, mais variado, mais bonito, mais confiante e mais espetacular do que seu antecessor. O combate cresceu. A infiltração melhorou. A travessia ganhou novas camadas. A tecnologia é assombrosa. O elenco é fenomenal. A trilha sonora é magnífica. E a direção de Hideo Kojima mantém aquela qualidade rara de fazer um projeto de centenas de pessoas parecer a expressão de uma voz autoral muito específica.

Kojima é um gênio não porque tudo o que faz seja intocável, mas porque ainda consegue convencer uma indústria gigantesca a financiar ideias que parecem impossíveis no papel — e depois transformá-las em experiências que ninguém mais saberia produzir da mesma forma. Death Stranding 2 é a prova mais completa disso.

É estranho. É excessivo. É emocionante. É tecnicamente deslumbrante. É cinema quando quer ser cinema, mas, principalmente, é videogame quando precisa ser videogame.

Nota do Acerto Games: 10/10.

Sobre o autor

Bruno Vazquez

Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.

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Com informações de: Análise Acerto Games / Kojima Productions / PlayStation

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