Valve admite que Next Fest expôs jogos de IA de baixa qualidade, mas diz que não vai barrar a ferramenta
Equipe do Steam explica que as demos aparecem quase ao acaso nos dois primeiros dias do festival e diz que um número significativo de pessoas trabalha numa solução.
Por Bruno Vazquez · 28 out 2026 · 10:34 · 4 min de leitura

📷 Steam Next Fest. Divulgação/Valve
A Valve admitiu que o Steam Next Fest de outubro deu espaço demais para jogos de baixa qualidade, muitos feitos às pressas com inteligência artificial. A resposta veio de Tom Giardino e Marc Wilkinson, da equipe de negócios do Steam. Eles falaram no Steam Indie Connect, evento para desenvolvedores na Coreia do Sul, nesta terça-feira (27).
A empresa, porém, deixou claro que não vai barrar jogos feitos com IA. "Não queremos ser porteiros que dizem aos desenvolvedores quais ferramentas eles devem ou não usar", afirmou Giardino. Para ele, a escolha é de cada estúdio. "No fim, é uma decisão de design, não de negócio", completou.
Por que o lixo apareceu primeiro
A explicação está na forma como o festival funciona. Nos dois primeiros dias, o Steam mostra as demos aos jogadores de forma praticamente aleatória. Só depois as recomendações personalizadas assumem e passam a pesar o comportamento de quem joga.
Segundo a Valve, o sorteio inicial existe para dar uma chance justa a todos e impedir que alguém manipule a vitrine logo na largada. O efeito colateral foi justamente o que os jogadores reclamaram nas redes. "Reconhecemos que o custo disso é que alguns jogos de baixa qualidade ganham exposição", disse Wilkinson.
A escala ajuda a entender o problema. Em cerca de três anos, o Next Fest saiu de algumas dezenas de jogos participantes para milhares. A edição de outubro foi de 19 a 26 de outubro e, segundo a própria Valve, reuniu milhares de demos gratuitas.
Gente trabalhando no problema
Wilkinson garantiu que a Valve está atrás de uma solução. "Um número significativo de pessoas está pensando em como resolver esse problema", afirmou. Giardino reforçou o tom. "Não achamos que somos perfeitos, e há muito espaço para melhorar", disse.
A linha da empresa é investir em descoberta, e não em filtro. "Tornar o Steam uma plataforma mais inteligente e dinâmica é o ponto de partida da nossa filosofia", explicou Giardino. Na prática, a Valve aposta que o sistema vai empurrar os bons jogos para cima com o tempo.

Uma das ferramentas dessa estratégia é o Calendário Pessoal, que deixou o Steam Labs e virou recurso oficial da loja na última sexta-feira (23). Ele cruza as horas jogadas de cada pessoa com o comportamento de jogadores parecidos. Segundo a Valve, a exposição de um jogo nesse calendário termina de uma a duas semanas depois do lançamento.
Clones e chantagem
Na sessão de perguntas, surgiu também um medo crescente entre desenvolvedores. Há relatos de e-mails de chantagem, em que golpistas ameaçam lançar clones feitos com IA antes do jogo original caso não recebam dinheiro.
Giardino disse que a Valve quer saber desses casos, mas que extorsão é assunto para a polícia. Ele lembrou que clones existiam antes da IA. Segundo ele, o Steam se preocupa menos em apagar cópias e mais em dar peso e visibilidade à versão original.
O conselho aos estúdios foi crescer junto com a comunidade. "Em vez de depender de uma mecânica que alguém pode copiar com facilidade, você precisa continuar ampliando o jogo com recursos, personalidade e criatividade", disse Giardino. Para ele, o lançamento parece a linha de chegada, mas é a linha de largada.
Wilkinson também desfez um mito comum entre desenvolvedores. A lista de desejos não aumenta a visibilidade de um jogo na loja. "O que move a visibilidade é o número de pessoas comprando e jogando o jogo", afirmou.
Os indies daqui
A discussão bate em cheio nos estúdios independentes daqui. Na mesma semana do festival, Obscurium, roguelike de cartas com folclore brasileiro, lançou sua demo gratuita no Steam e disputou atenção com milhares de outros jogos.
Obscurium, roguelike de cartas com o folclore brasileiro, ganha demo gratuita no Steam
Outro conselho da Valve serve bem para quem desenvolve aqui. Segundo Giardino, jogos que fazem sucesso fora do país de origem costumam conquistar defensores locais, como streamers, jornalistas e criadores de vídeo. A empresa também recomendou traduzir os anúncios de atualização e cuidar dos preços regionais.
Para quem joga, a dica prática vale para o próximo Next Fest, em fevereiro. Os primeiros dois dias são os mais bagunçados. Esperar o sistema de recomendação assumir, e olhar as listas de demos mais jogadas, tende a render uma vitrine mais limpa.
Steam Next Fest: sete demos para testar até segunda-feira, seis com português do Brasil
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
Ver perfil e matérias →Newsletter Acerto Games
Dê o start na informação certa
Um resumo diário com as principais notícias de games, direto no seu e-mail.
Leia no celular
Aponte a câmera e abra esta matéria


