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Por que a gente sempre volta a jogar os games que já zerou mil vezes?

Você tem uma biblioteca cheia de jogos novos esperando. E aí, numa noite qualquer, coloca de novo o Resident Evil 4, o Mario, o Pokémon da infância. A ciência (e o coração) explicam por quê.

Por Bruno Vazquez · 20 jul 2026 · 15:00 · 8 min de leitura

📷 Arte/K-Night Graphics

Deixa eu adivinhar. Você tem uma pilha de jogos novos ali, esperando. Uns comprados em promoção da Steam, outros que baixou no Game Pass e nem abriu, aquele lançamento que todo mundo elogiou. A biblioteca tá lotada de coisa que você nunca jogou. E aí, numa noite qualquer, cansado, você liga o console e coloca... Resident Evil 4. De novo. Pela décima quinta vez. Ou o Super Mario World. Ou abre o Pokémon da sua infância num emulador. E fica tudo bem no mundo.

Se você se reconheceu nessa cena, respira: não é preguiça, não é falta de imaginação, e definitivamente não é só você. Tem gente estudando exatamente isso — por que a gente abandona o novo pra voltar pro velho conhecido — e as respostas são mais bonitas (e mais profundas) do que 'ah, porque eu gosto'. Bora entender.

O jogo é o mesmo. Você é que mudou.

Aqui vai a primeira verdade, e ela é meio filosófica: quando você rejoga um game da sua infância, não está só revisitando o jogo. Está revisitando QUEM VOCÊ ERA quando jogou pela primeira vez. Os pesquisadores têm até um nome pra isso — 'autocontinuidade' (self-continuity, no original). É a sensação de que o seu 'eu' de hoje e o seu 'eu' de dez, vinte, trinta anos atrás são a mesma pessoa, uma linha contínua. E adivinha o que costura essas duas pontas com uma força danada? Um cartucho de Super Nintendo.

Um estudo publicado no periódico científico Memory mostrou que pessoas que rejogam games da juventude relatam níveis mais altos dessa autocontinuidade — e que isso faz bem de verdade pra saúde mental, principalmente em fases de transição da vida: mudança de emprego, virada de idade, perdas, aquele momento em que você não sabe direito quem virou. Colocar de novo o jogo antigo é uma forma de dizer pra si mesmo: 'ó, eu ainda sou eu. Continuo aqui.'

A tal da 'zona de conforto' existe — e ela é gostosa por um motivo

Tem uma explicação mais simples também, e ela é sobre o mundo lá fora ser imprevisível pra caramba. Trabalho, contas, notícia ruim, o futuro incerto. A vida adulta é uma sequência de coisas que a gente não controla. Aí você abre um jogo que zerou mil vezes e, pela primeira vez no dia, você SABE o que vai acontecer. Sabe onde tá o inimigo. Sabe a música que vai tocar na próxima fase. Sabe que, se apertar os botões na ordem certa, vai dar tudo certo.

Os psicólogos chamam isso de 'experiência fluente' — uma atividade que flui sem esforço, previsível, sem sustos. E não é preguiça mental, não: é descanso. É o equivalente digital de reler seu livro favorito ou rever aquele filme que você já sabe de cor. O cérebro AMA padrão, ama reconhecer o que vem a seguir. Num mundo que muda o tempo todo, um jogo que nunca muda é um porto seguro. É voltar pra casa.

O detalhe que a ciência confirma: sua memória MENTE (pro seu bem)

Agora um dado curioso e meio cruel: aquele jogo não era tão perfeito quanto você lembra. O seu cérebro reescreveu ele. Existe um fenômeno chamado 'pico de reminiscência' (reminiscence bump) — a tendência do cérebro de gravar as memórias da adolescência e do começo da vida adulta com um brilho, uma vividez, uma intensidade muito maior do que os outros períodos. É nessa época que a nossa identidade se forma, então tudo que aconteceu ali fica marcado a ferro e fogo.

Por isso a trilha sonora do jogo da sua infância te arrepia, mas a de um jogo que você jogou mês passado nem lembra. Não é que os games antigos eram melhores (embora a gente ame discutir isso). É que VOCÊ estava numa fase da vida em que tudo marcava mais fundo. O jogo pegou carona num dos momentos mais intensos da sua formação — e ficou lá, guardado, mais bonito na memória do que provavelmente era na tela.

Agora vamos falar da nossa realidade: o Brasil dos anos 90 e 2000

Porque, ó — a nostalgia gamer brasileira tem um sabor MUITO específico, e quem viveu sabe. Enquanto o moleque americano ganhava o console novo no Natal, a nossa relação com videogame era outra história, muito mais suada e, por isso mesmo, muito mais afetiva.

Começa pela locadora. Aquele ritual sagrado de pegar a bicicleta, ir até a locadora do bairro, e a angústia de escolher UM cartucho pra passar o fim de semana — porque alugar dois era luxo. A locadora era nossa Steam, nossa curadoria, nosso point. E tinha a regra não-escrita: se o jogo era bom demais, você renovava na segunda-feira torcendo pra ninguém ter reservado.

Tinha o Phantom System, o Dynavision, os clones nacionais do Nintendinho que rodavam na casa da maioria — porque o console 'de verdade' custava o salário de um mês. Depois chegaram Super Nintendo, Mega Drive, Master System e outros. Tinha aquele mercado de fliperama, a troco do lanche ou não (rs) trocada por ficha, o cara da banca que também vendia game. Tinha o Super Mario World e o Sonic dividindo a gente em tribos no recreio. Tinha o Playstation 1 chegando como um salto de outro planeta, o Resident Evil que a gente jogava de dia porque de noite dava medo, o Crash, o Winning Eleven que parava a rua inteira.

E teve o comecinho dos anos 2000: a lan house. Meu Deus, a lan house. Pagar por hora pra jogar Counter-Strike gritando com o amigo do lado, o Ragnarök, o GunBound, o Tibia. Foi ali que muita gente da nossa geração descobriu o online, fez amizade que dura até hoje, viveu a primeira comunidade gamer de verdade. A lan house foi o nosso Discord antes do Discord existir.

É por isso que a gente volta

Quando você, hoje, adulto, com boleto pra pagar, coloca de novo o Pokémon Red naquele emulador — você não tá só jogando. Você tá voltando pra locadora, pro recreio, pro chão da sala, pra época em que o maior problema do mundo era o chefe que você não conseguia passar. O game é uma máquina do tempo que ainda funciona. Aperta start e você tá lá.

E os exemplos que fazem isso com a gente são quase universais: o Super Mario, que todo mundo reconhece no primeiro acorde. Resident Evil 4, que é rejogado religiosamente porque continua PERFEITO (a ciência que me perdoe, mas esse aqui era bom mesmo). Zelda: Ocarina of Time, que definiu infâncias inteiras. Skyrim, que a galera coloca de volta a cada dois anos como quem visita uma cidade querida — tanto que virou meme, e a Bethesda relançou umas cinco vezes justamente porque a gente sempre volta. E o Pokémon, que é menos um jogo e mais um portal direto pros 8 anos de idade.

No fim das contas

Os pesquisadores fazem um alerta justo, e vale registrar: nostalgia é remédio, não é morada. Usar o passado pra se restaurar, pra recarregar as energias e seguir em frente — isso é saudável, é lindo. Se esconder nele pra fugir do presente pra sempre, aí vira armadilha. Como resumiu um dos estudiosos: 'a gente deve usar o passado pra enriquecer o presente, não pra substituí-lo.'

Mas convenhamos: uma noite de vez em quando revisitando Shadow Moses, Hyrule, Raccoon City ou a Rota 1 de Kanto não vai fazer mal a ninguém. Pelo contrário. É autocuidado com controle na mão. É reencontrar aquele moleque ou aquela menina que descobriu um mundo inteiro dentro de uma telinha — e lembrar que ele, ou ela, ainda mora em você.

Então pode ligar o console e colocar o jogo de sempre, sem culpa nenhuma. A gente entende. A gente faz igual. E se você chegou até aqui lendo, provavelmente já tá pensando em qual clássico vai rejogar hoje à noite. Vai lá. O save tá te esperando.

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Com informações de: Estudos de psicologia da nostalgia (Universidade de Newcastle, The Conversation, journal Memory) e apuração própria

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