E a Decima Engine? A ida de PHYSINT para o Xbox abre uma das maiores perguntas sobre o futuro do projeto
PHYSINT nasceu ligado à PlayStation e vinha sendo associado à tecnologia Decima, da Guerrilla. Agora que o Xbox assumiu a publicação, o que acontece com a engine? OD pode indicar um caminho.
Por Bruno Vazquez · 10 set 2026 · 00:30 · 7 min de leitura

📷 Divulgação/Xbox e Kojima Productions
A troca da PlayStation pelo Xbox em PHYSINT deixou uma pergunta imediata sobre plataformas, financiamento e até o futuro da relação entre Hideo Kojima e a Sony. Mas existe outra questão, muito mais técnica, que pode mexer profundamente com o próprio desenvolvimento do jogo: e a Decima Engine?
A pergunta não é pequena. A Decima pertence ao ecossistema tecnológico da Guerrilla Games, estúdio da PlayStation, e foi justamente essa tecnologia que sustentou Death Stranding e Death Stranding 2: On the Beach. Ao longo dos últimos anos, PHYSINT também vinha sendo associado a uma versão mais avançada da engine. Agora, porém, o projeto será publicado pelo Xbox.

Primeiro: PHYSINT estava realmente usando a Decima?
Aqui é importante separar o que foi apresentado publicamente do que está confirmado em detalhes técnicos. Durante a fase PlayStation do projeto, diferentes coberturas do material mostrado pela Kojima Productions apontaram PHYSINT como um jogo construído sobre uma versão mais avançada da Decima, a mesma base tecnológica utilizada em Death Stranding 2. Kojima também visitou a Guerrilla em Amsterdã quando o desenvolvimento de PHYSINT começava a ganhar corpo.
Ao mesmo tempo, a Kojima Productions nunca publicou uma ficha técnica definitiva explicando qual versão da engine seria utilizada até o lançamento. E isso se torna ainda mais importante agora: o anúncio da nova parceria com o Xbox não menciona a Decima uma única vez.
Portanto, neste momento, não existe confirmação oficial de que PHYSINT continuará usando a Decima sob o Xbox. Também não existe anúncio de que a engine foi abandonada.
A Decima não é apenas uma ferramenta que Kojima pode levar embora
A Decima nasceu dentro da Guerrilla Games. A própria Guerrilla descreve a tecnologia como sua plataforma e mantém uma equipe interna dedicada ao desenvolvimento da engine. Ela é utilizada nos projetos do estúdio e também compartilhada com parceiros externos.
A relação com a Kojima Productions, porém, sempre foi muito mais profunda do que uma licença comum. Em 2017, Kojima contou que a Guerrilla entregou a ele o código-fonte da tecnologia antes mesmo de existir um contrato fechado. As duas equipes passaram a trabalhar sobre a mesma base de código e a trocar melhorias. Foi dessa colaboração que nasceu inclusive o nome Decima.
Isso significa que existe uma década de conhecimento acumulado dentro da Kojima Productions. Artistas, engenheiros e designers do estúdio conhecem a tecnologia. Ferramentas e pipelines foram construídos ao redor dela. Death Stranding 2 mostrou até onde essa relação conseguiu chegar visualmente.

Então a Sony pode simplesmente impedir o uso?
Tecnicamente, essa é uma questão contratual — e os contratos não são públicos. A Guerrilla confirma que a Decima é utilizada também por estúdios externos, portanto a tecnologia não está limitada exclusivamente a equipes pertencentes à PlayStation. Mas isso não significa que qualquer empresa possa utilizá-la sem autorização.
A pergunta decisiva é se o acordo tecnológico entre Guerrilla, Sony e Kojima Productions permite que PHYSINT continue utilizando a Decima mesmo depois de a PlayStation deixar de financiar e publicar o jogo.
É perfeitamente possível que as empresas negociem uma licença específica. Também é possível que a saída da Sony torne necessária uma mudança tecnológica. Até que uma das partes fale sobre isso, qualquer conclusão definitiva seria especulação.
OD mostra que existe um Plano B — e ele se chama Unreal Engine 5
É aqui que a história fica ainda mais interessante. A Kojima Productions já está desenvolvendo outro projeto com o Xbox sem utilizar a Decima. OD: Knock roda na Unreal Engine 5.
Durante a apresentação do projeto em 2025, Phil Spencer explicou que equipes da Microsoft trabalham diretamente com a Kojima Productions na parte técnica da Unreal. Kojima chegou a elogiar o nível tecnológico alcançado em OD e afirmou que a infraestrutura criada para o projeto é completamente nova.
Isso muda bastante o cenário. Caso a continuidade da Decima se torne inviável, Kojima não precisaria começar uma relação com outra engine do zero. Seu próprio estúdio já possui uma produção de grande porte em Unreal Engine 5 e, mais importante, já trabalha nela junto ao Xbox.
PHYSINT poderia migrar para Unreal Engine 5?
Poderia. Mas 'poder' não significa que isso acontecerá — nem que seria uma troca simples.
Migrar um projeto entre engines pode significar refazer ferramentas, adaptar sistemas, reconstruir pipelines, rever shaders, iluminação, animação e integração de assets. Quanto mais avançada a produção, mais cara e dolorosa tende a ser essa mudança.
PHYSINT, entretanto, ainda está relativamente distante do lançamento e passou boa parte dos últimos anos em pré-produção, casting, pesquisa tecnológica e definição conceitual. Se uma mudança estrutural realmente precisar acontecer, este é um momento muito menos traumático do que seria depois de anos de produção plena.
Existe ainda uma ironia enorme nessa história
A tecnologia escolhida para PHYSINT sempre teve um peso simbólico. Kojima encontrou a Decima justamente depois de deixar a Konami e reconstruir sua carreira independente ao lado da Sony. Guerrilla e Kojima Productions não apenas compartilharam uma engine: ajudaram a desenvolvê-la juntas.
Agora PHYSINT, o projeto que deveria celebrar novamente a ligação de Kojima com a PlayStation e com o gênero de espionagem, está nas mãos do Xbox. Se a mudança de publisher também provocar uma mudança da Decima para a Unreal, teremos uma ruptura em duas camadas: comercial e tecnológica.
Por outro lado, se PHYSINT continuar na Decima mesmo publicado pelo Xbox, o cenário será talvez ainda mais fascinante. Teríamos tecnologia criada dentro de um estúdio PlayStation ajudando a construir um jogo financiado e publicado pela Microsoft. Em 2017, algo assim pareceria quase impossível. Em 2026, talvez seja o retrato perfeito de uma indústria em que antigas fronteiras estão desaparecendo.
E o que sabemos hoje?
Sabemos que o Xbox assumiu PHYSINT e que Kojima continuará desenvolvendo o projeto. Sabemos que a Decima é uma tecnologia da Guerrilla compartilhada com parceiros externos e que a Kojima Productions possui uma relação histórica e profunda com ela. Sabemos também que OD utiliza Unreal Engine 5 com apoio técnico da Microsoft.
O que ainda não sabemos é justamente a parte mais interessante: qual dessas duas tecnologias vai construir o PHYSINT que chegará às nossas mãos?
A resposta pode parecer um detalhe técnico. Não é. Ela poderá mostrar até onde vai a ruptura entre Sony e Kojima, quanto da antiga parceria sobrevive nos bastidores e o quanto o novo PHYSINT será diferente daquele que começou a ser construído sob o guarda-chuva da PlayStation.
Xbox anuncia nova parceria para PHYSINT
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
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Com informações de: Xbox Wire / Guerrilla Games / Kojima Productions