Miyamoto recebe a Ordem da Cultura, e os games entram pela primeira vez na maior honraria cultural do Japão
O criador de Mario e Zelda está entre os oito nomes de 2026 anunciados pelo governo japonês. É a primeira vez que a condecoração vai para alguém do mundo dos games. A entrega é em 3 de novembro, dois dias antes de Ocarina of Time chegar ao Switch 2.
Por Bruno Vazquez · 24 out 2026 · 08:30 · 4 min de leitura

📷 Shigeru Miyamoto. Foto oficial do governo do Japão (CC BY 4.0)
Shigeru Miyamoto vai receber a Ordem da Cultura, a mais alta condecoração cultural do Japão. O governo japonês divulgou nesta sexta-feira (23) os oito agraciados de 2026, e o criador de Mario e Zelda é o primeiro nome dos videogames a entrar na lista desde que a honraria foi criada, em 1937.
A medalha é entregue pelo Imperador em cerimônia no Palácio Imperial, em Tóquio, no Dia da Cultura, 3 de novembro. Miyamoto, de 73 anos, divide a turma de 2026 com Kenso Soai, professor honorário da Universidade de Ciências de Tóquio e Nobel de Química deste ano.
Sete anos depois do Mérito Cultural
O reconhecimento vem em degraus. Em 2019, Miyamoto já tinha sido nomeado Pessoa de Mérito Cultural, título que o Estado japonês concede a quem contribui para a cultura do país. A Ordem da Cultura é o passo seguinte e costuma ir para escritores, cientistas, cineastas e artistas tradicionais com carreiras inteiras de reconhecimento.
Até aqui, o meio que Miyamoto ajudou a definir ficava de fora. O Japão exporta games há quatro décadas e trata Mario como embaixador informal do país, mas nenhum criador do setor tinha chegado a essa lista. A escolha do fellow da Nintendo funciona como um selo oficial: para o Estado japonês, o videogame agora está na mesma prateleira da literatura, do cinema e da ciência.
"Ninguém faz um jogo sozinho"
Miyamoto falou sobre a honraria numa entrevista coletiva de cerca de uma hora, na quinta-feira (22), na sede da Nintendo, em Kyoto. A coletiva aconteceu um dia antes da divulgação oficial. Ele disse estar "muito sem graça e realmente honrado" e repetiu uma ideia que acompanha toda a sua carreira: games são feitos por muita gente. Por isso, afirmou que recebe a medalha como representante de todos os que trabalharam com ele.
O discurso não é só modéstia. Desde Super Mario Bros., de 1985, Miyamoto trabalhou como diretor e depois como produtor que costura equipes, ao lado de nomes como Takashi Tezuka e Koji Kondo. Ele fez questão de levar esse crédito coletivo para a cerimônia mais formal da carreira.
Um recado sobre IA
A parte mais afiada da coletiva foi sobre inteligência artificial. Miyamoto separou duas coisas: ter a ideia e executar o trabalho que vem depois. Para ele, a execução dá prazer e sensação de produtividade, e é aí que mora o risco. "O mais assustador é ficar satisfeito com o trabalho e achar que saiu uma coisa boa", disse. Na leitura dele, quanto mais a IA assumir a execução, mais todo mundo vai precisar pensar no que significa criar de verdade, e ainda resta muito para as pessoas fazerem.
O conselho aos desenvolvedores jovens seguiu a mesma linha. Miyamoto pediu que eles parem de pegar um jogo de sucesso e tentar melhorá-lo com ajustes. Segundo ele, é muito mais divertido levar adiante a ideia original, aquela do tipo "e se a gente fizesse isso?". Vindo de quem criou Super Mario Bros. e levou Zelda ao 3D em Ocarina of Time, é uma provocação direta a uma indústria que vive de sequências e de fórmulas testadas.
Dois dias antes de Ocarina of Time
O calendário ajuda a dar peso ao momento. A condecoração é entregue em 3 de novembro, dois dias antes do lançamento de The Legend of Zelda: Ocarina of Time no Switch 2, em 5 de novembro, no ano em que a série completa 40 anos. É o remake do jogo que Miyamoto produziu em 1998 e que ele mesmo defendeu em julho, quando disse que a onda de remakes da Nintendo leva a desenvolvimentos futuros.
Miyamoto hoje é diretor representativo e fellow da Nintendo. Não dirige jogos no dia a dia, mas segue como a principal referência criativa da empresa e esteve à frente da expansão de Mario para o cinema e para os parques temáticos. A Ordem da Cultura reconhece essa trajetória inteira, e a coletiva mostrou que ele ainda tem opinião firme sobre o rumo da indústria.
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
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