Últimas
GTA 6 muda sistema de armas: NPCs vão reagir ao que Jason e Lucia carregamAnálise: Hell is Us — um universo fascinante que merece ir muito alémDouble Fine anuncia Thank You Bus Driver, um simulador de ônibus completamente caóticoManeater 2 é anunciado e leva o tubarão para um parque temático em 2027Nintendo terá dois Directs seguidos: Zelda celebra 40 anos e apresentação geral vem no dia seguinteGTA 6 muda sistema de armas: NPCs vão reagir ao que Jason e Lucia carregamAnálise: Hell is Us — um universo fascinante que merece ir muito alémDouble Fine anuncia Thank You Bus Driver, um simulador de ônibus completamente caóticoManeater 2 é anunciado e leva o tubarão para um parque temático em 2027Nintendo terá dois Directs seguidos: Zelda celebra 40 anos e apresentação geral vem no dia seguinte
ACERTOGAMES
◂ Voltar para a home
notícia

Heroes of Might and Magic III vai renascer — e a Ubisoft sabe que não pode simplesmente refazer um clássico

Remake de Heroes III reconstrói Erathia em 3D e 4K, reúne as expansões e promete preservar mapas criados pela comunidade. Para um jogo que continua vivo 27 anos depois, fidelidade não é nostalgia: é requisito.

Por · 26 ago 2026 · 07:02 · 9 min de leitura

📷 Heroes of Might and Magic III Remake / Ubisoft — thumbnail do trailer

Há remakes que recuperam jogos antigos. Heroes of Might and Magic III enfrenta uma tarefa muito mais difícil: refazer um jogo que, para uma parte de sua comunidade, nunca chegou a ficar velho.

A Ubisoft anunciou na Opening Night Live da Gamescom 2026 um remake completo do clássico de estratégia lançado em 1999. Heroes of Might and Magic III Remake chega em 2027 para PC, PlayStation 5 e Xbox Series X|S, reconstruído em 3D e 4K na Snowdrop Engine. A promessa inclui as campanhas do original e das expansões Armageddon's Blade e The Shadow of Death, câmera livre, melhorias de qualidade de vida, multiplayer online, Hot Seat e — talvez a decisão mais importante de todas — compatibilidade com milhares de mapas e campanhas criados pela comunidade ao longo de mais de duas décadas.

Antes de Erathia, existia Might and Magic

Para entender por que esse remake provoca uma reação diferente de tantos outros, é preciso voltar além de 1999. Jon Van Caneghem fundou a New World Computing nos anos 1980 e criou Might and Magic, uma das séries importantes da primeira geração de RPGs para computadores. Em 1990, King's Bounty experimentou uma mistura de exploração, exércitos e batalhas que serviria como ancestral direto de Heroes of Might and Magic.

O primeiro Heroes chegou em 1995. A ideia parecia simples no papel: explorar um mapa por turnos, coletar recursos, desenvolver cidades, recrutar criaturas e transformar heróis em comandantes cada vez mais poderosos. Na prática, a mistura entre estratégia, RPG, economia e exploração criou um ritmo próprio que poucos jogos conseguiram reproduzir.

Heroes III, dirigido por David Mullich e desenvolvido pela New World Computing, refinou essa fórmula em 1999. Nove facções, dezenas de criaturas, magia, artefatos, campanhas e mapas que podiam consumir tardes inteiras fizeram de Restoration of Erathia um daqueles jogos em que a expressão 'só mais um turno' deixa de ser figura de linguagem.

Um clássico que a crítica reconheceu na época

A reputação de Heroes III não nasceu apenas da nostalgia. Em março de 1999, Greg Kasavin deu 9,1/10 ao jogo na GameSpot e descreveu a fórmula de Heroes como uma das concepções mais brilhantes da estratégia, destacando a combinação de micro e macromanagement. Décadas depois, a comunidade continua sustentando essa reputação: o jogo mantém nota 9,2 entre usuários no Metacritic, com mais de mil avaliações registradas.

Isso cria um problema peculiar para qualquer remake. A Ubisoft não está reconstruindo uma curiosidade histórica que precisa ser salva do esquecimento. Está mexendo em um jogo que ainda é jogado, modificado e discutido.

A primeira tentativa de modernização deixou uma lição

Heroes III já recebeu uma HD Edition em 2015. Ela modernizou a apresentação, mas não carregou consigo tudo o que tornou a Complete Edition tão querida, especialmente as duas expansões. A própria existência de uma comunidade que continuou preferindo outras versões mostrou que resolução maior não basta quando o conteúdo e o ecossistema importam tanto quanto os pixels.

O remake de 2027 parece ter entendido essa lição. A Ubisoft promete reunir Restoration of Erathia, Armageddon's Blade e The Shadow of Death em uma narrativa contínua, acrescentando prólogo, epílogo e novas cenas. Em vez de escolher uma parte do legado, quer reconstruir o pacote que os fãs aprenderam a tratar como definitivo.

De pixels para Snowdrop

Visualmente, a mudança é radical. O mapa isométrico fixo dá lugar a ambientes tridimensionais com câmera livre. A Snowdrop, tecnologia usada pela Ubisoft em projetos de grande escala, renderiza Erathia com iluminação moderna, animações refeitas e resolução 4K.

Essa é justamente a parte que merece mais cautela. Heroes III possui uma legibilidade extraordinária. Em poucos segundos, o jogador identifica recursos, estradas, minas, criaturas, castelos e pontos de interesse. A arte não era apenas bonita; ela transmitia informação.

Transformar tudo em 3D pode tornar Erathia espetacular, mas o remake só terá sucesso se preservar essa leitura instantânea. Um mapa de estratégia não é um cartão-postal. Cada detalhe visual também é interface.

Preservar os mapas dos jogadores talvez seja o maior anúncio

Entre todas as promessas, uma se destaca: a Ubisoft afirma que milhares de mapas e campanhas criados pela comunidade ao longo de mais de 25 anos continuarão compatíveis. Além disso, haverá ferramentas atualizadas de edição e um hub interno para descobrir, baixar e compartilhar conteúdo criado por usuários.

É difícil exagerar a importância disso. Parte da longevidade de Heroes III existe porque seu conteúdo não terminou quando a New World Computing parou de produzi-lo. Jogadores construíram cenários, campanhas e desafios durante décadas. Preservar esse acervo significa reconhecer que a história do jogo não pertence apenas à empresa que detém a propriedade intelectual.

Essa decisão também mostra uma compreensão rara sobre preservação. Remakes normalmente substituem. Aqui, pelo menos na promessa, a Ubisoft tenta transportar uma cultura inteira.

Hot Seat continua — como deve ser

O remake terá partidas online para até oito jogadores e matchmaking modernizado, mas a confirmação do Hot Seat é igualmente importante. Para uma geração de jogadores, Heroes III era multiplayer antes mesmo de internet rápida ser rotina: amigos dividiam o mesmo computador e passavam o teclado enquanto cada um fazia seu turno.

É uma característica tecnologicamente simples e culturalmente enorme. Removê-la em nome da modernidade seria apagar uma das maneiras pelas quais o jogo construiu sua comunidade.

O legado mudou de mãos, mas não desapareceu

A história empresarial de Might and Magic é tão acidentada quanto algumas campanhas da série. A New World Computing acabou integrada à 3DO, que entrou em falência em 2003. Os direitos de Might and Magic foram então adquiridos pela Ubisoft. Desde então, diferentes estúdios tocaram a propriedade, com resultados variados.

Isso torna o remake especialmente simbólico. A Ubisoft não criou Heroes III, mas há mais de duas décadas é guardiã de uma obra criada por outro estúdio, outra equipe e outra época da indústria. Refazê-la significa assumir responsabilidade por uma memória que precede a própria posse da franquia.

Fidelidade aqui não significa medo de mudar

Um remake não precisa preservar cada limitação de 1999. A Ubisoft fala em planejamento aprimorado, ferramentas de decisão mais claras, turnos simultâneos, matchmaking melhor e interface modernizada. Tudo isso pode tornar Heroes III mais confortável sem alterar o que existe no centro: explorar, desenvolver cidades, formar exércitos, evoluir heróis e descobrir como uma decisão aparentemente pequena feita vinte turnos atrás pode definir uma guerra.

O desafio está em saber onde parar.

Heroes III é lembrado não apesar de sua idade, mas porque seu design continua extraordinariamente coerente. O remake não precisa ensinar ao original como ser um bom jogo. Precisa encontrar uma maneira de permitir que uma nova geração perceba por que ele já era um.

Voltar a Erathia é fácil. Fazer Erathia continuar sendo Erathia é outra coisa.

O trailer desperta nostalgia, mas o anúncio mais interessante não é o 4K, a câmera livre ou a Snowdrop. É a insistência da Ubisoft em falar sobre mapas antigos, Hot Seat, campanhas completas e comunidade.

São sinais de que alguém entendeu o tamanho da responsabilidade.

Heroes of Might and Magic III não precisa de um remake para continuar existindo. Ele já sobreviveu a 27 anos, à falência de sua antiga publicadora, à morte de seu estúdio original, a sequências, mudanças de nome e uma HD Edition incompleta.

É o remake que precisa de Heroes III.

Se a Ubisoft conseguir modernizar Erathia sem apagar as razões pelas quais tanta gente nunca foi embora, 2027 não será apenas o retorno de um clássico. Será a oportunidade rara de apresentar uma obra fundamental da estratégia a quem nasceu muitos anos depois dela — sem pedir aos veteranos que deixem sua história do lado de fora.

Sobre o autor

Bruno Vazquez

Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.

Ver perfil e matérias →
Compartilhar:WhatsAppX

Leia no celular

Aponte a câmera e abra esta matéria

Com informações de: Ubisoft

Leia também