Ex-Naughty Dog diz que Uncharted não precisa de remake: "teria que reescrever a história inteira"
Benson Russell, designer dos três primeiros Uncharted e de The Last of Us, explicou por que refazer a série não faria sentido — e o argumento dele é mais afiado do que parece à primeira vista.
Por Bruno Vazquez · 13 ago 2026 · 10:50 · 4 min de leitura

📷 Nathan Drake em Uncharted 4: A Thief's End. Divulgação/Naughty Dog
A pergunta parece inofensiva: você gostaria de ver Uncharted refeito com a cara dos jogos de hoje? Quem respondeu foi alguém que ajudou a construir a série — e a resposta foi um não bem argumentado.
Benson Russell, que trabalhou na Naughty Dog como designer em Uncharted 1, 2 e 3 e também em The Last of Us, disse em entrevista à FRVR que não vê sentido nenhum em remake ou remasterização da franquia. A declaração foi reportada pelo Video Games Chronicle e traduzida por aqui pelo GameBlast.
O critério dele é bom: remake serve pra consertar acesso, não pra repetir sucesso
O raciocínio do Russell parte de uma comparação. Ele cita System Shock como exemplo de refação que faz todo sentido: o jogo original era acessível, mas os controles eram tão hostis que afastavam quem tentava chegar perto. Ali, o remake resolve um problema real — ele derruba a barreira entre a obra e quem quer conhecê-la.
Uncharted, argumenta ele, não tem esse problema. A série segue viva no imaginário do público e já existe uma versão jogável em console moderno pra quem quiser a experiência completa. Refazer o quê, então?
É um critério que vale guardar, porque separa duas coisas que a indústria adora confundir. Remake como restauro: um jogo que envelheceu mal e precisa de tradução pra linguagem atual. Remake como caixa registradora: um jogo que envelheceu bem e vai ser vendido de novo porque a marca ainda puxa gente pro caixa. O Russell está dizendo que Uncharted cairia na segunda categoria.
E se refizessem com o tom dos jogos novos da Naughty Dog?
Foi exatamente essa a sugestão que jogaram pra ele — imaginar Uncharted com a narrativa mais lenta e emocional que a Naughty Dog passou a praticar. A resposta foi que isso mudaria o espírito da obra: pra melhorar a história, seria preciso reescrevê-la inteira, mexendo nas cenas e na própria proposta do original.
E ele levanta a pergunta prática que ninguém costuma fazer: e as grandes sequências de ação, aquelas que definiram a série? Ficam ou saem? Se ficarem, destoam do tom novo. Se saírem, sobra o quê?
Uncharted é ritmo. É o trem despencando na montanha, o avião de carga se desmontando no ar, a perseguição de jipe pela Índia. Você tira a pressa daquilo e não tem um Uncharted mais maduro — tem outro jogo, com o mesmo nome na capa.
Ele pensa igual sobre The Last of Us
O designer estendeu o mesmo raciocínio à outra franquia da casa e ofereceu uma alternativa: em vez de refazer, que a Naughty Dog capture o espírito da série e faça um jogo novo ambientado no passado, voltando às origens.
Pra registro do leitor: a trilogia original de Uncharted saiu no PS3, foi remasterizada em 2015 para PS4 como Uncharted: The Nathan Drake Collection e continua à venda na PlayStation Store. O quarto capítulo e o spin-off Lost Legacy também já chegaram ao PS5 e ao PC. Acesso, portanto, não falta.
Concordo com ele, e vou além. A pressa de refazer o que ainda funciona é sintoma de um problema maior: virou mais seguro reembalar do que arriscar. Uncharted não precisa de tinta nova. Precisa de coragem pra alguém fazer um jogo com aquela energia de novo — e a Naughty Dog é justamente a casa que sabe como.
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
Ver perfil e matérias →Leia no celular
Aponte a câmera e abra esta matéria
Com informações de: GameBlast (com informações do Video Games Chronicle e da entrevista à FRVR)