Onimusha está de volta — e a Capcom parece ter entendido o peso de ressuscitar uma série após 20 anos
Novo trailer, demo expandida e Miyamoto Musashi com o rosto de Toshiro Mifune mostram uma Capcom consciente de que Onimusha não pode voltar apenas como nostalgia.
Por Bruno Vazquez · 26 ago 2026 · 10:00 · 8 min de leitura

📷 Thumbnail do trailer oficial de Onimusha: Way of the Sword/PlayStation/Capcom
Há retornos que podem ser tratados como lançamento. E há retornos que carregam a responsabilidade de uma época inteira. Onimusha: Way of the Sword pertence claramente ao segundo grupo.
Durante a Gamescom 2026, a Capcom mostrou o sexto trailer do jogo, atualizou sua demo com uma nova área e o chefe Daidara e reforçou aquilo que já vinha ficando evidente nos últimos meses: este não é um projeto interessado apenas em reutilizar um nome conhecido. A empresa está tentando reconstruir a identidade de Onimusha para uma geração que talvez nunca tenha segurado um controle de PlayStation 2.
Uma franquia que ajudou a definir a Capcom dos anos 2000
O primeiro Onimusha: Warlords chegou em 2001, no início da vida do PlayStation 2. A ideia misturava horror, aventura, quebra-cabeças e combate com espadas em uma versão sobrenatural do Japão feudal. Era impossível não enxergar alguma herança de Resident Evil na estrutura de exploração, nos cenários e na câmera, mas Onimusha rapidamente desenvolveu uma personalidade própria através do combate e da absorção de almas com a Oni Gauntlet.
A série cresceu rápido. Onimusha 2: Samurai's Destiny veio em 2002, Onimusha 3: Demon Siege em 2004 e Dawn of Dreams em 2006, além de derivados como Blade Warriors e versões alternativas como Genma Onimusha. Segundo os dados corporativos da própria Capcom, a franquia já ultrapassou 9,2 milhões de unidades vendidas.
É um número importante, mas talvez não explique completamente a relevância da marca. No começo dos anos 2000, Onimusha estava no mesmo catálogo de uma Capcom que ainda construía sua identidade moderna com Resident Evil, Devil May Cry e Monster Hunter. A série foi suficientemente grande para colocar Jean Reno em Onimusha 3 e suficientemente ambiciosa para transformar atores reais em personagens digitais muito antes de isso virar prática recorrente em produções AAA.
O silêncio posterior, portanto, sempre pareceu estranho. Dawn of Dreams, último grande capítulo inédito, saiu há duas décadas. Nesse intervalo, Resident Evil foi reinventado, Devil May Cry retornou em grande forma, Monster Hunter virou fenômeno global e até Dragon's Dogma ganhou uma segunda chance. Onimusha permaneceu como uma lembrança de uma Capcom que parecia ter deixado parte do próprio passado para trás.
Toshiro Mifune não é apenas uma escolha de marketing
Way of the Sword escolhe Miyamoto Musashi como protagonista e utiliza o rosto de Toshiro Mifune, um dos maiores símbolos do cinema samurai japonês. Mifune morreu em 1997, o que obrigou a equipe a reconstruir sua aparência a partir de material de referência, com acompanhamento da Mifune Productions.
A escolha tem um peso cultural difícil de ignorar. Mifune foi a figura central de diversos filmes de Akira Kurosawa e ajudou a cristalizar no imaginário mundial a imagem do samurai cinematográfico. Colocar sua presença em um Onimusha moderno aproxima o jogo não apenas da história da própria franquia, mas também da tradição de cinema japonês da qual jogos de samurai inevitavelmente bebem.
O diretor Satoru Nihei explicou que o time trabalhou em colaboração com a cidade de Kyoto e chegou a reproduzir detalhes arquitetônicos de templos históricos. Ao mesmo tempo, admite licenças criativas quando elas ajudam a transmitir ao jogador a sensação de visitar esses locais. É uma decisão interessante: fidelidade histórica suficiente para sustentar o mundo, mas sem transformar o jogo em museu.
O combate parece reconhecer o que fez Onimusha ser Onimusha
A parte mais promissora do novo trailer não é o tamanho dos monstros. É a insistência da Capcom em preservar o prazer quase ritual de acertar uma espada no instante certo.
O Issen, ataque de contra-ataque associado à série desde os primeiros jogos, continua sendo uma peça central. Way of the Sword adiciona o Break Issen, que pode ser executado após quebrar completamente a resistência de determinados inimigos. Segundo a equipe, a intenção é permitir que mais jogadores experimentem a sensação dos golpes decisivos sem eliminar a exigência de habilidade que sempre diferenciou o sistema.
Há também um sistema de desmembramento dinâmico, em que os cortes seguem a trajetória do golpe, e o novo Oni Awakening mostrado na Gamescom, que libera o poder sobrenatural de Musashi em momentos de combate mais intenso.
Esse equilíbrio é provavelmente a questão mais importante para o projeto. Se a Capcom modernizar demais, corre o risco de transformar Onimusha em apenas mais um jogo de ação em terceira pessoa. Se preservar tudo de forma rígida, pode produzir uma experiência que parece presa em 2004. O material mostrado até agora sugere que o estúdio entendeu que o caminho mais interessante está no meio: recuperar a precisão, o ritmo e a atmosfera do original usando sistemas contemporâneos para dar profundidade à fórmula.
A demo expandida é uma boa decisão — especialmente para uma franquia esquecida
A demo recebeu uma segunda missão na área chamada Oni Refuge e agora permite enfrentar o enorme Daidara. O progresso salvo também rende um amuleto no jogo completo, o Kubi Akari, acompanhado de um bônus de atributos.
Pode parecer um detalhe, mas existe uma inteligência comercial nessa estratégia. Onimusha é famoso para quem viveu a era do PS2; para uma parcela enorme do público atual, o nome não carrega memória alguma. Uma demo permite que o jogo seja apresentado pelo próprio combate em vez de depender apenas de nostalgia, trailer e marketing.
É também uma tradição que a própria Capcom recuperou com força nos últimos anos. Resident Evil frequentemente recebe demos antes do lançamento, Monster Hunter tem betas e testes públicos e outros projetos recentes da companhia foram apresentados diretamente ao jogador antes da compra. Em uma indústria em que pré-venda costuma preceder qualquer contato real com o produto, permitir que o público jogue antes é uma forma mais convincente de confiança.
O retorno acontece em uma Capcom muito diferente daquela de 2006
Talvez esse seja o melhor momento possível para Onimusha voltar.
A Capcom atravessou um dos grandes ciclos de recuperação da indústria japonesa. Depois de anos marcados por decisões irregulares e projetos que pareciam perseguir tendências ocidentais, a empresa reencontrou força ao investir novamente em suas próprias identidades. Resident Evil 7 redefiniu sua principal franquia de horror; Resident Evil 2 mostrou como refazer um clássico sem transformá-lo em peça de museu; Devil May Cry 5 devolveu à série a exuberância mecânica que a tornou especial; Monster Hunter: World ampliou uma fórmula japonesa sem diluí-la.
Way of the Sword chega com a responsabilidade de provar que esse método também funciona para uma série ausente há vinte anos.
O histórico crítico deixa uma referência considerável. Genma Onimusha alcançou 83 no Metacritic em sua versão de Xbox, enquanto Dawn of Dreams terminou com 81 no PS2. A franquia nunca dependeu apenas de nostalgia: seus melhores capítulos eram jogos muito bem avaliados em seu próprio tempo.
A pergunta agora não é se Onimusha merece voltar
Essa questão já foi respondida pela própria permanência da franquia na memória de quem jogou os originais.
A pergunta real é se a Capcom consegue fazer com Onimusha o que fez com suas outras marcas: preservar o núcleo que justificou sua existência e, ao mesmo tempo, permitir que uma nova geração descubra por que aquilo importava.
O sexto trailer, a demo expandida, o cuidado com Kyoto, a presença de Mifune e a tentativa de modernizar o Issen sem abandoná-lo apontam na direção correta. Ainda é cedo para chamar Way of the Sword de retorno triunfal. Isso só poderá ser decidido com o jogo completo.
Mas há uma diferença enorme entre ressuscitar uma marca e compreender seu espírito. Até aqui, a Capcom parece estar tentando fazer a segunda coisa.
Onimusha: Way of the Sword será lançado em 4 de setembro de 2026.
Sobre o autor
Bruno Vazquez
Jornalista formado em 2008 e editor do Acerto Games, com 18 anos de experiência profissional. A cobertura combina apuração jornalística, experiência de jogador e análise da indústria.
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Com informações de: Capcom / PlayStation Blog