ZA/UM demite até 32 pessoas depois que Zero Parades não vendeu o suficiente — e a internet não perdoou
O estúdio de Disco Elysium anunciou mais uma rodada de demissões, desta vez citando o desempenho comercial do sucessor espiritual Zero Parades: For Dead Spies. A história desse lugar nunca foi simples — e continua não sendo.
Por Bruno Vazquez · 18 jul 2026 · 09:55 · 5 min de leitura
📷 Reprodução/Eurogamer
O ZA/UM Studio, estúdio por trás do aclamado Disco Elysium e do recém-lançado Zero Parades: For Dead Spies, anunciou nesta sexta-feira (18) que vai demitir até 32 funcionários 'em todos os departamentos'. A notícia veio por meio de um comunicado oficial divulgado nas redes sociais do estúdio, que apontou o desempenho comercial de Zero Parades como a razão principal: as vendas, segundo a própria ZA/UM, não foram suficientes 'para sustentar um estúdio do nosso tamanho atual'.
Papo reto: a ironia aqui é grossa. Zero Parades: For Dead Spies foi muito bem recebido pela crítica — o próprio site Eurogamer, do Reino Unido, deu cinco estrelas ao jogo, descrevendo-o como obra de 'uma equipe criativa no auge do seu talento'. Só que elogios de crítica não pagam salário. O jogo saiu há cerca de dois meses e, aparentemente, não conseguiu converter admiração em número de vendas capaz de segurar a operação inteira. Quem conhece a história sombria da ZA/UM sabe que a empresa carregava um fardo pesado de polêmicas antes mesmo de Zero Parades chegar às lojas.
E que história essa é. Desde 2021, o ZA/UM vive numa telenovela jurídica e pública sem fim: o diretor de jogo de Disco Elysium, Robert Kurvitz, e o diretor de arte Aleksander Rostov acusaram a gestão do estúdio — especificamente Ilmar Kompus e Tõnis Haavel — de ter assumido a propriedade do estúdio e da propriedade intelectual de forma fraudulenta, além de terem sido demitidos quando começaram a pedir acesso aos registros financeiros. A gestão negou tudo e contra-atacou com uma série de acusações próprias. Desde então, processos judiciais entraram e saíram, declarações foram trocadas publicamente como socos, e pelo menos quatro estúdios novos foram fundados por ex-desenvolvedores de Disco Elysium — alguns deles também arrastados para disputas legais. É o tipo de coisa que você assistiria num documentário de crime, não num comunicado de uma empresa de games.
Esta também não é a primeira vez que a ZA/UM passa pelo machado das demissões. Em 2024, segundo relatos anteriores apontados pela Eurogamer, cerca de 24 funcionários foram mandados embora e um spin-off de Disco Elysium foi cancelado. Na época, ex-funcionários relataram um ambiente 'marcado por crunch, burnout e conflitos'. O estúdio chegou a outubro de 2025 com cerca de 100 funcionários e, naquele mesmo mês, conquistou um marco histórico: foi o primeiro estúdio de games do Reino Unido a ter um sindicato oficialmente reconhecido, representado pela Independent Workers Union of Great Britain. O próprio comunicado de agora menciona que a ZA/UM 'continuou a consultar e trabalhar com representantes da ZA/UM Workers' Alliance' durante o processo de demissão.
A reação nas redes sociais foi, como era de esperar, extremamente crítica. Com os comentários desativados tanto no X quanto no Bluesky, as pessoas usaram a função de 'citar' para dar o seu recado — e os recados foram duros. 'Sinto muito pelos trabalhadores', escreveu um usuário no Bluesky, segundo a Eurogamer, acrescentando que o ZA/UM 'envenenou a marca para a maioria dos fãs' e que o estúdio 'vai cair mais cedo ou mais tarde'. E cá entre nós: a ironia de um estúdio famoso por um jogo de temática anticapitalista e crítica ao sistema demitir dezenas de trabalhadores por pressão de resultado financeiro é do tipo que machuca a alma.
Para os 32 colegas que estão saindo agora: o próprio comunicado do ZA/UM pediu que quem esteja contratando os considere. O mercado de desenvolvimento de games está difícil — muito difícil — e torcer por essas pessoas é o mínimo. O ZA/UM diz que 'persiste' e que seus 'padrões artísticos permanecem livres'. Quem sabe. O que a gente sabe é que Disco Elysium continua sendo um dos jogos mais importantes já feitos, e que a história por trás dele é, até hoje, uma das mais tristes e bagunçadas da indústria.
Com informações de: Eurogamer